29 de mai de 2014

Entrevista com Steven Seagal

Entrevista de Steven Seagal para o Jornal Shambala Sun - concedida em Novembro de 1997.

(Traduzido por Paulo C. G. Proença -- Dojo Kokoro - Sorocaba).
*Entrevista no Instituto Takemussu, não é de nossa autoria


Nessa entrevista com o escritor de cinema Stanley Weiser, o expert em artes marciais e ator de cinema em filmes de ação, Steven Seagal, quebra o silêncio sobre seus vários anos de práticas budistas e lança críticas em relação ao reconhecimento recente, de ser uma incarnação de um Lama Tibetano.

Stanley Weiser: Em primeiro lugar, voce pode contar aos leitores um pouco sobre seu background na arte do Aikido --- por quanto tempo voce treinou, quem foram seus professores e quando voce atingiu o status de mestre?
Steven Seagal: Bem, o título de mestre --- no papel --- é uma coisa que eu provavelmente recebi na década de oitenta. Eu ainda não acredito que atingi esse nível de ser um mestre. Talvez algumas pessoas pensem que sou um mestre, mas em minha mente certamente não o sou.

Quando voce iniciou seus treinos em Aikido?
Lá pelos anos sessenta, comecei a treinar com Ishisaka Kiyoshi.

Voce se iniciou no Budismo como uma ramificação da sua disciplina das artes marciais?
Bem, para ser honesto com voce, eu não tenho certeza. Eu nasci com uma consciência espiritual muito séria e por muitos anos estudei vários caminhos. Fui ao Japão no final da década de sessenta e comecei a me envolver com Zen. Visitei mosteiros, estudando Budismo e recebendo instruções espirituais. Isso foi o começo para mim, do modo que achei que deveria ser --- o desenvolvimento físico de um homem através das artes marciais e o polimento do lado espiritual simultaneamente.

Voce também estudou acupuntura?
Certo. Essa foi a maneira pela qual fui primeiramente introduzido no Budismo Tibetano. Haviam muitos Lamas que tinham vindo do Tibet. Estavam doentes e haviam sido torturados. Por eu estar estudando acupuntura, me foi pedido para tomar conta de alguns deles, mesmo eu não sabendo falar a língua Tibetana. Conseguimos nos comunicar sem problemas. Acabei aprendendo Tibetano e me tornei muito amigo deles. Mais tarde, acabei me envolvendo em certas coisas que realmente não são o tipo de coisas que quando me recordo, me trazem boas lembranças. Era uma época quando os Kampas ainda estavam lutando com os Chineses e a CIA estava ajudando-os, e por causa da severa repressão que havia sobre o povo Tibetano, eu quis me envolver. Meu envolvimento foi mínimo. Esses foram os anos em que meu interesse em Budismo Tibetano foi despertado, mas meu envolvimento em quaisquer atividades espirituais e treinamentos continuaram assunto pessoal --- não secreto como algumas das outras coisas foram, mas pessoal. Foi uma época em que eu queria estar completamente invisível na comunidade dharma por várias razões. Somente nos últimos meses que eu apareci.

Voce pode nos dizer de seu envolvimento com os guerreiros libertadores do Tibet?
Acho que seria melhor se não entrássemos nesse assunto. Nós estamos tentando viver num mundo onde podemos escolher o caminho do meio e procurar harmonia, eu não quero parecer ser uma pessoa revolucionária perigosa, porque realmente não sou. Estou aqui na Terra para uma coisa e essa coisa é ver de alguma maneira posso servir a humanidade e aliviar o sofrimento dos outros.

Quem foi seu guru inicial?
Basicamente, para mim Sua Santidade Dilgo Mhyentse Rinpoche foi o maior, e hoje em dia, minha devoção á Minling Trichen e Sua Santidade Penor Rimpoche é muito forte.

Existem reportagens recentes que dizem que Penor Rimpoche o reconheceu como um tulku. Isso está correto?
Meu Deus, Essa não é a maneira que eu colocaria isso. Há uma revista muito vil que me fez acusações dizendo que eu subornei Penor Rimpoche e todos os outros lamas mais altos para me darem o reconhecimento. Bem, em primeiro lugar, esse é um reconhecimento que as pessoas já me disseram existir há mais de vinte anos, pessoas que eu conheci em dharma há muito tempo, muito antes de Penor Rimpoche formalizar isso. Foi algo que sempre mantive em segredo e até chequei a negar. Então, se eu neguei, porque eu subornaria alguém agora? Voce me entende, é tão estúpido. Eu não ligo que me insultem, mas é uma vergonha que as pessoas escandalizem o dharma e falem coisas más sobre Penor Rimpoche e outros lamas Nyingma mais altos.

Voce está dizendo que por m ais de vinte anos as pessoas vem dizendo que voce poderia possivelmente ser um tulku?
Existem pessoas que me dizem que sou um lama encarnado ou tulku. Penor Rimpoche basicamente me reconheceu como Kyung-drak Dorje, que foi a reencarnação do tradutor Yudra Nyingpo. De acordo com "Vidas dos Tertons" de Jamgon Kongtrul, Yudra Nyingpo foi discípulo do grande tradutor Berotsana e se tornou um estudante exemplar e chegou a mestre de meditação. Muitas de suas reencarnações, como a do tradutor de Minling Lochen Dharma-shri, conseguiram contribuir com o Budismo e parecem ter renascido em vários tertons (reveladores de tesouros).

Voce tem memórias de sua vidas passadas?
Desde o tempo em que comecei a ir a Índia e meditar, eu comecei a ter memórias que eram um pouco confusas. Há alguns dias atrás, eu estava sentado com um lama e uma das coisas que ele me disse foi que eu tinha várias marcas de muitas vidas passadas fortes, e devido a isso, minha percepção virá muito mais sutilmente que a de outras pessoas.

O que voce quer dizer com isso?
Não sei explicar, realmente. Mas com alguma coisa como ngondro, se voce treinar e treinar e dissolver-se no vazio com o treinamento e voce está se concentrando em bodhicitta mais do que qualquer coisa, voce provavelmente começará aos poucos a dissolver o véu de quem voce pensa que é e se transformará em sua verdadeira natureza, que é a combinação de todas as suas vidas passadas. Nós só temos que relembrá-las. É aí que o retiro é benéfico. É claro, quanto mais voce pratica, voce desenvolverá siddhis diferentes. Mas nenhum deles realmente importa. O que realmente importa é o que voce faz com sua vida. Em contraste com o que aquela revista tinha a dizer, quando uma pessoa me perguntava se eu era um tulku, o que eu tenho a dizer é que não creio que isso seja importante quem eu fui em minhas vidas passadas, eu penso que o que importa é o que soou nessa vida. E o que eu faço somente é importante seu eu puder aliviar o sofrimento dos outros, se eu conseguir fazer do mundo um lugar melhor, se de alguma maneira eu puder servir a Buda e à humanidade, se eu puder, de alguma maneira, plantar a semente de bodhicitta no coração das pessoas.

Então, contrário ao fato de muitas pessoas pensarem que esse reconhecimento foi um tipo de descoberta repentina, na verdade foi desenvolvida durante um longo período de tempo.
Oh, eu tenho feito meditações sérias da minha própria maneira por mais ou menos vinte e sete anos.

É um longo tempo. Os estudante tem que chamá-lo por algum título diferente?
As pessoas me chamam de todo o tipo de coisas, incluindo palavras de quatro letras (f...). Eu respondo a todos eles. Quando entro em algum lugar, algumas pessoas vêem um cachorro, algumas pessoas vêem uma vaca; eu sou tudo o que eles vêem, é a percepção deles. Mas eu acredito que a natureza Buda está em todos nós, mesmo em um malhado deitado num beco cheio de pulgas. O cachorro é Buda para mim. As pessoas podem me chamar do que elas quiserem, eu respondo a tudo.

Voce deu uma palestra pública em Santa Bárbara - Califórnia, recentemente.
Eu transmiti ensinamentos, sempre ensinamentos sobre Buda. O Dalai Lama me disse para me concentrar em bodhicitta. É isso que eu sinto que gostaria de fazer.

O Dalai Lama lhe deu instruções particulares sobre ensinamentos?
Eu não diria que ele me deu instruções particulares sobre ensinamentos. Mas ele me deu instruções pessoais e me convidou a vir a outros ensinamentos dele. Eu também estudaria, espero, com Trichen Rimpoche e Penor Rimpoche --- esses são alguns dos lamas que eu acho ser professores extraordinários e grandes mestres, e tenho a sorte de me ser dado algum tempo com eles. Tenho esperança de que, estando sentado com eles, eu absorverei algum conhecimento ou sabedoria em como transmitir o pouco que eu já sei.

Quando voce se tornou uma estrela de cinema, no que isso afetou seu ego? Voce perdeu o controle? Os ensinamentos devem ter sido duros de aprender, considerando que tentavam te explorar e/ou abusar?
Mesmo quando eu estava no Japão, as pessoas tentavam me endeusar, e a razão pela qual eu saí de lá é porque esse "endeusamento" é uma grande e mortal armadilha. Essa é a razão pela qual eu mantive minhas práticas espirituais para mim mesmo, na América. Não acho que ser tido como um deus foi meu maior problema na vida porque tive a sorte de ter compreendido há muito tempo que, o que a adoração e o poder realmente são. Acho que o maior obstáculo foi somente a falta de entendimento do jeito que seria.

Há um ditado Budista que diz, "Trabalhe com as grandes sujeiras/corrupções primeiro". O que voce diria que foi a maior decepção que voce teve que enfrentar nessa vida?
Foi não entender realmente a diferença entre desejo de perfeição espiritual para o benefício de todos os seres perceptivos/conscientes e me alimentar com isso. Foi aí que eu me confundi em minha juventude, eu pensava que se eu pudesse me alimentar espiritualmente até atingir altos níveis espirituais, daí então eu poderia fazer coisas melhores no mundo e seria bom para mim e por conseqüência seria bom para todos os outros. Eu era ignorante e tolo até entender que a base de tudo tem que vir primeiro com o benefício de todos os seres conscientes. Isso foi um grande obstáculo para mim e me causou muito sofrimento.

Voce acha que o reconhecimento é um meio de acelerar esse processo?
Espero que sim.

Quais práticas de meditação voce faz?

Eu faço ngondro e faço yoga guru, essa é uma grande forma de meditação para mim. Faço práticas secretas que sou autorizado a fazer.

Voce faz adorações?
Adorações são minha coisa favorita no Universo. Nesse momento estou tentando simplificar todas minhas práticas que estão em minha cabeça, todos os tantras que tentei aprender e estou tentando me concentrar em bodhicitta. Quando fico meio esotérico no campo dos tantras, me perco um pouco. Daí eu entendo a sabedoria de meus professores quando eles me dizem para voltar ao início e me concentrar em bodhicitta. Não sou um ser altamente iluminado, não sou um grande lama, não tenho nenhuma grande prática. Sou uma pessoa bem simples tentando chegar na primeira base e a mais prática de Bodisattva. Estou iniciando memorizações humildes, meditações e orações.

Por quanto tempo voce pratica?
Não tenho um relógio particular. Eu não marco quanto tempo pratiquei, mas eu diria que é por mais ou menos por duas horas na parte da manhã e por duas hora na parte da noite. Na vida corrida do cinema com o caos e o ego incerto, onde está seu senso de equilíbrio?

Como voce se segura nesse mundo?
Eu realmente não me importo com o que as pessoas pensam ou falam de mim. Quando voce pergunta, o que me dá conforto na alma e acalma o samsara, é o Guru Rimpoche, o Deus Buda e todos seus protetores, dakas e dakinis. Eu caminho diretamente para essa cidade e contribuo dando o pouco que sou capaz.

Em quais outros projetos voce tem gasto seu tempo?
Eu quero poder alimentar as crianças que estão morrendo de fome e doentes no Tibet. Quero trabalhar em projetos inicialmente com crianças que estão morrendo de fome e doentes. Também estamos tentando fazer algo para as pessoas com problemas nos olhos no Tibet. Muitos dos mosteiros necessitam de ajuda. Quando aquela revista disse essas coisas erradas sobre meus professores, o que eles não quiseram mencionar é que eu dôo tradicionalmente grandes parcelas em dinheiro para várias organizações religiosas diferentes. Fiz isso em segredo, mas parece que, no que chamamos de "crença da imprensa", não há lucro quando se reporta feitos bondosos. Eles preferem notícias más, mesmo que tenham que fabricá-las.

Parte disso, eu acho, é a inabilidade deles conciliarem sua imagem no cinema com sua imagem de homem espiritual.
Atuar é uma arte. É a intenção que seja uma arte. Um de meus professores disse que a arte é a mãe da religião; nos tornando um com nós mesmos e com a natureza, nos tornamos um com Deus. Não estou dizendo que sou um grande artista; provavelmente eu seja um artista fraco, mas o ponto é que consegui através desse veículo, espalhar o dharma e ajudar outras instituições religiosas pelo mundo, desde Judeus, Católicos até os Hindus.

O que voce faz com toda essa raiva desenfreada que provém desse negócio traiçoeiro. Sendo um Budista, como voce responde a isso?
Sou humano, quando me machuco eu sangro como qualquer um. Quando isso acontece, é melhor trazer seus problemas em suas práticas. Sobrepondo sua raiva, dor e apego, nos tornamos mais fortes, voce leva isso a Buda, até os protetores, e nos purificamos.

Seu tipo no cinema, é o de uma pessoa nobre e forte protegendo os inocentes e oprimidos dos gangsters, traficantes de drogas e terroristas. Nos personagens que voce interpreta, voce é forçado a enfrentar a violência com violência. Quando voce se vê na tela, como voce concilia a carnificina com o estilo de vida de uma pessoa que pratica os ensinamentos de compaixão e não-violência?
Bem, não acho que uma ciosa tenha a ver com a outra. Acho que a arte imita a vida e sua função deveria ser uma perfeita e exata interpretação de como a vida realmente é, em todas as suas emanações. Sou um artista procurando aperfeiçoar e progredir em seu trabalho, mas ao mesmo tempo tenho meus sentimentos sobre a violência. Eu estava sob o contrato da Warner Brothers que eu não conseguia sair, e o que eles queriam de mim era que fosse somente o homem nos filmes de ação. Foi me oferecido somas extraordinárias em dinheiro por outros estúdios para que fizesse outros tipos de filmes e a Warner Brothers não me liberava. Agora que estou fora daquela situação, terei a oportunidade de fazer os tipos de filmes que eu realmente gostaria, que certamente terão uma natureza espiritual e que levarão as pessoas à contemplação e oferecerá a elas prazer.

Okay, última pergunta. Entendendo a inseparabilidade de samsara e do nirvana, o que voce diria que é e melhor coisa em ser Steven Seagal e qual a pior coisa em ser Steven Seagal?

Como voce sabe, eu fui criado em Zen e não olho para a minha vida em termos de melhor ou pior...

Eu quis dizer de um ponto de vista relativo...
A coisa que mais aprecio e agradeço são os professores que me permitiram ter um pouco mais de sabedoria e conhecimento que é o que me mantém respirando agora. Tenho que agradecer pela habilidade que possuo na tela do cinema para trazer às pessoas prazer e felicidade e à habilidade que tenho esperança de ter no futuro, para trazer as pessoas ao Caminho da contemplação. Em termos de coisas ruins, considero ser meus piores inimigos e meus piores sofrimentos os meus maiores professores, para que haja sempre um outro lado para essas forças negativas.

Muito Obrigado!

Muito obrigado. 


FONTE: Instituto Takemussu

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